A passagem de Celso Roth por Jaraguá do Sul

Difícil afirmar, mas pode-se especular que a breve temporada de Celso Roth à frente do Juventus teve uma importante contribuição em sua carreira.
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© Arte Clic

Por Henrique Porto

Depois da grande campanha no Campeonato Brasileiro da Série C em 1995, quando o Juventus ficou entre as 32 melhores equipes em um universo de 107 clubes (24º lugar, com 3 vitórias, 3 empates e 2 derrotas, 12 gols marcados e 9 gols sofridos), as expectativas para a temporada de 1996 eram as melhores na margem esquerda do Rio Jaraguá.

Como Joubert Pereira¹ não quis seguir no comando técnico do tricolor, no dia 9 de janeiro o presidente Ângelo Margutte acertou por telefone com Celso Juarez Roth. O então desconhecido treinador de 39 anos vinha de um trabalho à frente Grêmio Esportivo Brasil, de Pelotas (RS), após sucessivas temporadas no Oriente Médio e uma passagem breve pela base do Sport Club Internacional (RS).

Formado em ‘Educação Física’ pela Universidade de Caxias do Sul (UCS), com pós-graduação em ‘Aprendizagem Motora’, Roth trouxe a tiracolo o preparador físico André Baratz², na época com 30 anos, que estava no XV de Novembro, da cidade de Campo Bom (RS). Ambos assinaram contrato até o final do Campeonato Catarinense, o que ocorreria apenas em julho.

A comissão técnica ainda contava com o apoio de Nelson Domingues (técnico dos juniores, recém-chegado do Atlético de Ibirama), Joe Joaquim Waltrick Junior (médico), Luiz ‘Zaga’ Leandro (massagista), Waldemir Krebs (roupeiro) e Zé Mário³ (supervisor).

A preparação juventina foi pautada pela tranquilidade e iniciou no dia 22 de janeiro. Margutte pensava inicialmente em concentrar a equipe no Seminário Sagrado Coração de Jesus, em Corupá, ou em hotel não informado em Timbé do Sul. Acabou optando pelo Centro Shalom, um antigo hospital em Nereu Ramos. Enquanto o gramado do Estádio João Marcatto passava por melhorias e ampliação para 104 por 74 metros, os treinamentos eram realizados nos campos do Amizade, em Guaramirim, e do João Pessoa.

O grupo alternou bastante entre chegadas e partidas, mas para o início da competição Roth contava com os goleiros Márcio Ventura e Volnei; os laterais Renato Cruz, Isaías e Pavan; os zagueiros Everaldo, Omar, Altair e Henrique; os volantes Scharles, Renato Barão e Éder; os meias Isney, Eli, Ramalho e Sandro Ventura; os ponteiros Ricardo, Reinato e Niltinho, além dos atacantes Marcus Vinicius e Ricardinho. Estes recebiam um salário mínimo como salário, sem luvas, ficando a folha de pagamento em torno de R$ 28 mil. “Quase metade do que era gasto no ano passado”, se gabava Margutte ao jornal O Correio do Povo. A média de idade da equipe era de 25 anos.

Roth desejava três amistosos para preparar o plantel, mas acabou se contentando com dois, ambos contra equipes amadoras. Como forma de agradecimento pela cessão dos campos para treinamento, o Juventus jogou contra Amizade e João Pessoa, então vice e campeão da divisão de elite da Liga Jaraguaense de Futebol (LJaF) no ano anterior.

No primeiro amistoso preparatório, dia 28 de janeiro de 1996, vitória por 1 a 0 sobre o Amizade, no Estádio Henrique Bernardi. O zagueiro Henrique anotou na etapa complementar, com o onze do ‘Time do Padre’ alinhando com Márcio Ventura (Cristiano); Renato Cruz, Henrique, Altair (Alcir) e Márcio Costa (Isaías); Scharles (Ronaldo), Roberto Barão e Ramalho (Isney); Ricardo, Sandro (Itamar) e Niltinho.

No segundo amistoso, dia 3 de fevereiro de 1996, revés por 2 a 1 para o João Pessoa, em peleja realizada no Estádio João Lúcio da Costa. Ricardinho anotou o tento juventino, tendo Roth alinhado a equipe com Márcio Ventura; Renato Cruz, Henrique, Alcir (Altair) e Márcio Costa (Isney); Índio, Alexandre e Ramalho (Isaías); Ricardo (Reinato), Ricardinho e Niltinho.

A estreia no Campeonato Catarinense estava agendada para o dia 11 de fevereiro, em casa, mas acabou ficando para mais tarde, no dia 22, atendendo a um pedido do Blumenau. O Juventus venceu apertado, por 1 a 0, gol de Altair cobrando penalidade máxima já na etapa complementar, para a alegria dos 1.119 torcedores que compareceram ao João Marcatto. Sob a batuta de Roth, o zagueiro de origem Altair atuava na função de volante.

O segundo compromisso da equipe ocorreu no dia 25, em Florianópolis, contra o Figueirense, no Estádio Orlando Scarpelli. Os comandados de Celso Roth abriram 2 a 0 na etapa inicial com Altair (novamente de pênalti) e Niltinho, mas a expulsão de Roberto Barão quase coloca tudo a perder. O Figueirense descontou no segundo tempo e pressionou, mas o Juventus soube segurar o ‘Furacão’ e trazer os três pontos na bagagem.

Naquele momento o ‘Moleque Travesso’ liderava o Campeonato Catarinense e surpreendia Santa Catarina mais uma vez. Porém, os três jogos seguintes trariam uma ducha de água fria ao time, um choque de realidade. Foram as derrotas para o Tubarão (2 a 1 fora de casa, dia 3/3, com Marcus Vinícius anotando), Criciúma (1 a 0 em casa, dia 10/3, com gol do ex-juventino Índio e Toto entrando em campo na etapa complementar pelo adversário) e Chapensoense (1 a 0 fora de casa, dia 17/3).

Após a derrota para o Criciúma, Celso Roth reclamou para a imprensa local que não estava conseguindo repetir a escalação e isso estava prejudicando o rendimento da equipe. A imprensa, por sua vez, começava a questionar sua capacidade técnica. “A não ser que por solicitação dos jogadores, estavam bem na partida, Niltinho e Ramalho foram substituídos por Celso Roth sem que as mudanças tenham trazido benefícios ao time”, analisava Geraldo José, em A Gazeta.

O Juventus voltaria a vencer na chuvosa noite de 20 de março de 1996, para 299 testemunhas, quando virou um jogo complicado sobre o Avaí no João Marcatto. O badalado atacante avaiano Jacaré abriu o placar aos 33’ da etapa inicial, com direito a driblar toda a defesa tricolor, incluindo o goleiro Márcio Ventura. A reação veio na etapa complementar, com as entradas de Polaco — recém-chegado — e Sandro Ventura. Marcus Vinícius marcou de cabeça aos 18’ e Reinato aproveitou uma sobra do goleiro para virar o marcador aos 28’.

Três pontos na conta, mas o desempenho da equipe não agradou Ângelo Margutte. “Vencemos o Avaí, mas não convencemos”, esbravejou ao jornal O Correio do Povo. O dirigente então agendou uma reunião com a comissão técnica para o dia seguinte (21/3). Na pauta, debater mudanças no elenco e até mesmo discutir a permanência de Roth. Dias antes o mandatário já havia dado um recado sobre seu descontentamento dispensado o massagista Zaga, sem dar maiores explicações.

E Roth acabou mesmo demitido, com Abel Ribeiro e Celso Rezende reassumindo o comando juventino na partida seguinte, contra o Joinville, fora de casa, no dia 24. Por coincidência, Ribeiro havia enfrentado o mesmo adversário na rodada anterior, como técnico do Brusque. “Os maus resultados nos últimos três jogos e desentendimentos entre jogadores e comissão técnica foram os principais motivos que o presidente do Jaraguá Atlético Clube, Ângelo Margutte, atribuiu para a saída do técnico Celso Roth”, informou o jornalista Peterson Izidoro, em O Correio do Povo.

Os números da passagem de Celso Roth pelo Grêmio Esportivo Juventus — que mudou seu nome fantasia para Jaraguá Atlético Clube em 29 de janeiro daquele ano — não deixam de ser interessantes. Sua história em Jaraguá do Sul foi escrita em oito jogos, sendo seis oficiais e dois amistosos. Destes, a equipe venceu quatro (50%) e perdeu outros quatro (50%). Foram cinco jogos fora do João Marcatto, com dois triunfos e três revezes. Em casa, três jogos, com duas vitórias e uma derrota.

O Juventus de Celso Roth anotou oito gols e sofreu oito, médias de um tento marcado e outro sofrido por partida. Os artilheiros foram Altair e Marcus Vinícius, com dois gols cada. Henrique, Ricardinho, Niltinho e Reinato completam a lista. Destes gols, três foram marcados nos jogos em casa e cinco fora. Em se falando nos gols sofridos, seis deles ocorreram longe de Jaraguá do Sul e apenas dois nos jogos realizados em casa.

Difícil afirmar, mas pode-se especular que a breve temporada de Celso Roth à frente do Juventus teve uma importante contribuição em sua carreira. Ainda em 1996, no Caxias (RS), o treinador conquistou a Copa Daltro Menezes, um torneio disputado por diversos clubes do interior do Rio Grande do Sul. Isso reabriu as portas do Internacional, onde foi Campeonato Gaúcho de 1997 e realizou uma boa campanha no Campeonato Brasileiro do mesmo ano, levando o ‘Colorado’ até as semifinais da disputa e tornando seu nome conhecido nacionalmente.


¹ Joubert Pereira da Silva

² André Benami Baratz

³ José Mário Rezende

publicado mais de 3 anos